domingo, 10 de agosto de 2014

O DESPREZO, por Tádzio Nanan


O desprezo é um tipo de ódio arrefecido, tentando conter-se nos limites da indiferença, para parecer mais saudável e apropriado; às vezes, no entanto, ele escapa ao controle do seu portador e tem-se incontinenti uma explosão de ódio vibrante e maquiavélico, o olhar revela isso com muita força, o cenho contraído também.
O desprezo é uma arte feminina por excelência (sutil técnica de linchamento moral) direcionada, sobretudo, aos homens. Não significa que homens não desprezem mulheres: muitos as desprezam, apesar de precisarem delas, o que é contraditório, mas é como os homens são. Mas a arte/ciência do desprezo vem sendo desenvolvida, quiçá há milênios, pelas mulheres, e é no olhar delas (um olhar que não lhe alcança), em seu gestual (um gesto de apressada retirada), em suas palavras (as que não foram ditas ou as que ficaram subentendidas), que ele atinge seu esplendor máximo, sua plasticidade irresistível e, claro, sua crueldade dantesca.
Claro que algumas mulheres terão razão em desprezar certos tipos mesquinhos de homens, mas frequentemente é apenas autoengano: uma pretensão ridícula de que são moral e intelectualmente superiores a seus antagonistas(?). Tal falsa superioridade está baseada em uma enviesada interpretação da realidade, espécie de dissonância cognitiva.
Mas não importa, o desprezo, assim como o ódio, é um dado da natureza humana e está muito bem consolidado, nos genes e na cultura – as pessoas se desprezam e se odeiam (quanta falta de humildade não haverá nisso?), mas nem o desprezo nem o ódio chegam e se estabelecem sem pesados custos físicos, mentais e emocionais a todos os envolvidos. Odiar e desprezar causam um cansaço e um mal-estar insuportáveis ao coração e à própria mente, e, de repente, estamos mais ocupamos nesta empreitada do que em qualquer outro aspecto da nossa vida!
O desprezo é o pecadilho das almas finas(?), que se deixam envaidecer, e soberbamente, vestem a toga de juiz de um tribunal de exceção e passam a julgar as pobres almas ao alcance de suas implacáveis vistas. Ou seria o desprezo algo menos nobre? Seria o desprezo ciúme, invídia, desforra, arrogância? Seria o desprezador um indivíduo tomado de sórdidas, repugnantes e mal resolvidas paixões?
Pode ocorrer o caso de alguns desprezarem a si mesmos, e, como numa inusitada transferência psíquica, passarem a desprezar os outros, a ponto de qualquer trivial característica do próximo incomodá-los deveras, e passamos a castigar o infeliz, sem aviso prévio ou maiores explicações, meio sadicamente, com nossa sublime e superior indiferença, que, na verdade, não é bem indiferença assim, já que o outro mexe com nossos instintos mais secretos.
E quando o desprezado se enche de brios, percebe a covardia e a injustiça de sua situação e numa inversão corajosa passa a desprezar quem tanto lhe despreza? Não é algo bonito de se ver, poético, cinematográfico, revolucionário? Não... É apenas mais um capítulo repleto de mediocridade das conflituosas relações humanas!
O desprezo é das ações humanas uma das mais cruéis, o que denuncia o caráter hediondo daquele que se dedica com afinco a tal cotidiana empreitada. O desprezo é cruel, mas na cabecinha de alguns é arma muito chique, legítima e adequada, a que eles podem recorrer porque são merecedores, pois têm superioridade moral e intelectual! Muitos nobilíssimos corações fazem recorrente uso dela em suas superelegantes e dignas trajetórias de vida!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

EU E OUTROS , por Tádzio Nanan


Eu sou o passado
Outros representam o futuro

Eu sou daqueles que flertam com a morte
Outros sonham com a imortalidade tecnológica (a vida eterna, não através da alma, mas da mente)

Eu sou o biológico, e suas deformações
Outros já pensam em seu cabal porvir pós-humano

Eu sou caótico
Outros têm tudo minuciosamente arquitetado

Eu sou à toa
Outros não estão pra brincadeira: esforçam-se todos os dias para brilhar

Eu sou poeta
Outros sabem ganhar rios de dinheiro

Eu sou daqueles que padecem de angústia e ansiedade crônicas
Outros, como sistemas cibernéticos, ajustam-se a cada instante para atingirem a perfeição

Eu sou delirante
Outros se cercam de expectativas e desejos comezinhos

Eu sou uma contradição ambulante
Outros trazem a solução na ponta da língua

Eu tento, tento, tento e o talento não acontece
Outros têm vocação para a boa vida e a felicidade

Eu tenho tendência a ser mesquinho
Outros revelam alma superior e iluminada

Eu sou persona non grata
Outros ganham elogios e coisa à beça de graça

Eu quase não tenho amigos
Outros têm Facebook e fazem network

Eu sonho com abdicar de tudo
Outros estão construindo impérios

Eu quero ficar aqui bem quietinho
Outros querem receber aplausos, homenagens

Eu não sei o que significa ser um homem sério
Outros querem fazer história

Eu estou sempre na corda bamba, à beira do precipício
Outros são centrados e resilientes, têm atitudes moderadas e sustentáveis

Enfim, como eu disse:
Eu sou o passado
Outros representam o futuro

sábado, 2 de agosto de 2014

OU TUDO OU NADA, por Tádzio Nanan


Os deuses sussurraram em meu ouvido:
Ou tudo ou nada!

O capeta também jogou sua isca:
Ou tudo ou nada!

Meus instintos me mandaram escolher:
Ou tudo ou nada!

O destino me lançou um feitiço:
Ou tudo ou nada!

E essa jornada começou por acaso!
Ou tudo ou nada!

A angústia me esmaga o peito:
Ou tudo ou nada!

Não acredito neles, nem quero isso pra mim:
Ou tudo ou nada!

Homens mais estúpidos do que eu chegaram lá:
Ou tudo ou nada!

E se for mais um delírio da minha mente?
Ou tudo ou nada!

Deus está morto, logo estarei eu:
Ou tudo ou nada!

Ela me amava; agora é uma pálida lembrança:
Ou tudo ou nada!

Meus inimigos debocham das minhas escolhas:
Ou tudo ou nada!

A plateia, curiosa, espera pra ver:
Ou tudo ou nada!

O ponto de não retorno!
Como disse o célebre romano: alea iacta est!

Ou tudo o que sonhei ou juro que sumo, caio na estrada!
Ou tudo o que sonhei ou um revólver, o estrondo, a bala!
Ou tudo o que sonhei - esses ideais fulgurantes, ou o nada!

terça-feira, 29 de julho de 2014

CORAÇÃO LOUCO, por Tádzio Nanan

Coração louco, pulsando descompassadamente, sem decifrar o que sente, coração de homem feito refém do assustado menino de outrora, o menino subjugando o homem de agora
Aventuras tamanhas, desventuras tamanhas, e um coração tão frágil, cheio de melindres, de poucas ousadias, de poucas esperanças, coração de soldado vencido, entregue às mãos do carrasco, na marcha para longos anos de esquecimento
Um coração sem rumo ou propósito, pulsando à toa, triste depósito de amarguras, duras são as horas que o coração pulsa solitário, por causa nenhuma, por ninguém, na espiral de emoções conflituosas, afogando-se nas intempéries das próprias idiossincrasias
Coração selvagem, incivilizado, companheiro das altas solidões, dos duradouros silêncios, da rústica simplicidade, coração meio de bicho, esgueirando-se, escondendo-se nas matas da selva de pedra da civilização, dividido entre o chamado da natureza e a beleza do discurso e os encantamentos da palavra
Coração selvagem, mas, contraditoriamente, melodramático também, sentimental coração latino-americano, asfixiado nas paixões clandestinas que inventa para si
Coração, meu arredio coração, ainda na ignorância de si mesmo, na escuridão que incautamente teceu para si, na escuridão e na ignorância, pulsando, pulsando descompassadamente, tão pouco coração e tanta vida!


segunda-feira, 28 de julho de 2014

O ÓDIO, por Tádzio Nanan

O ódio respira pelos olhos do odiento, que ardem em chamas e crivam seu objeto com raios fatais de pura maldade. O ódio se nutre da imagem do objeto odiado e assim se robustece, se solidifica, tornando-se muralha intransponível para o afloramento dos bons sentimentos. Quanto mais odiamos menos amor temos a oferecer aos outros. Ódio e amor são mutuamente excludentes. O ódio é exclusivista. É ele e mais nada. O ódio cresce na garganta, sobe para a língua, explode pela boca, e se torna verbo, palavras malévolas, maledicentes, cantos noctíferos, que espalham sombras e noites. O ódio é força da natureza quando assume os braços, as mãos, do odiento, e promove a destruição que tanto almeja, à força, com golpes implacáveis, irreversíveis.
Quanto mais fracos somos mais forte ele se configura, e se somos uma nulidade moral ele se torna infinito, torna-se nossa segunda pele, ou mais que isso, nosso lar, passamos a morar nele, escondemo-nos covardemente debaixo de sua asa negra, ele nos protege, acarinha, e escancara as portas para nosso lado escuro. O problema com o ódio é que é gostoso senti-lo queimando nas veias, é narcótico poderoso, vicia, e passamos a adorá-lo como um deus nefasto, e erguemos sua catedral negra e viramos devoto, discípulo dele, e assim caímos em sua armadilha, porque ele passa a nos orientar a vida, guiar nossos pensamentos, atos, palavras. Ele nos quer escravos.
Quando a vida perde o sentido, muitas vezes, o ódio empresta-lhe um, dá-lhe significado, ainda que o preço cobrado seja alto e venha mais adiante, na forma de uma morte prematura, ou na forma de uma longa vida amesquinhada e medíocre, mantida por ele e para ele, a serviço dele, dedicada a ele. O ódio dorme sob a sombra da nossa consciência, da nossa humanidade e prega o desassossego, a discórdia, o tumulto, é vulto que nos acompanha de perto, sorrateiro, prestes a dar o bote quando nossa imunidade moral fraqueja. O ódio é como um vírus que se apossa do nosso corpo para reproduzir-se contaminando cada vez mais gente para seu exército de dementes, de furiosos, de desesperançados. O ódio é obsessivo, paciente e resoluto, ele odeia seu objeto com constância invejável, não faz concessões, não sente empatia, não diminui sua marcha para a catástrofe, instilando seu veneno em toda e qualquer oportunidade, e se regozijando disso.
Um homem forte não sente ódio, o ódio é para os fracos e covardes, o odiento não pode sentir amor por ninguém, porque o ódio denigri e depaupera o amor, fulano não ama cicrano, fulano odeia beltrano, o ódio é uma mácula no coração de qualquer um, aliás, quem sente ódio não tem coração tem qualquer coisa sombria no lugar, uma pedra, um vazio, um grito, uma noite, bombeando pelo corpo raiva, invídia e vingança. O ódio é a coisa mais relevante na vida do odiento, não deixa espaço para mais nada, o ódio triunfa sobre tudo. O ódio é rei.

Muito cuidado com o ódio que ele vai te roubar tudo: caráter, consciência, humanidade, teus sonhos também (e tu passarás a sonhar os pesadelos dele). Cuidado, muito cuidado mesmo, com este pequeno ódio que alimentas contra alguém (e ingenuamente te delicias com isso), porque a vocação do ódio é crescer, crescer rápida e esmagadoramente, e consumir, consumir tudo, insaciavelmente. Até te consumir, até te engolir inteiro, num vórtice de tragédia e desespero!

domingo, 27 de julho de 2014

MEU LANCE!, por Tádzio Nanan


Meu lance não é dinheiro, é sossego
Vai tu, meu irmão, procurar emprego

Meu lance não é a cama, é a rede
Não tenho esse tipo de fome, esse tipo de sede

Meu lance não é o estudo, é a contemplação
Prefiro a sabedoria à metódica reflexão

Meu lance não é enfrentar, é fugir
Meu lance não é acordar, é dormir

Meu lance não são as amizades, mas a solidão
Três almas juntas pra mim é confusão

Meu lance não é o conflito, é a anuência
Não entro em jogos de influência

Meu lance não é o movimento (movimento basta o da Terra), é relaxar
Só de olhar os outros correndo fico sem ar

Meu lance não é alimentar duvidas, é ter certezas (ainda que pequenas....)
E com elas vivo uma vida serena

Meu lance é desaparecer, ficar escondido
Meu lance é esquecer e ser esquecido

PEQUENO POEMA DE ANIVERSÁRIO - para meu pai, por Tádzio Nanan

NANAN

Nanan, nosso protetor
Inabalável fortaleza de amor

Nanan, nossa orientação
O vento, as estrelas, a intuição

Nanan, nossa sintonia
Com os ideais de honra e valentia

Nanan, nosso professor
A palavra, o gesto, o suor

Nanan, nosso campeão
Braço, mente, coração

Nanan, nossa alegria
Que bom tê-lo aqui todo dia

Feliz aniversário
09/07/2014

sexta-feira, 13 de junho de 2014

AMIGO (dedicado a Jorenilson Madeiros Medeiros), por Tádzio Nanan


Amigo, quantas vezes eu te disse que eras especial
Ganhamos muito a teu lado, perde quem não te conhecer
Tens tanta coisa de doce, de acolhedor, de angelical
Uma candura e suavidade difíceis de esquecer!

Amigo, quantas vezes eu te disse que tinhas talento
Uma vocação para as artes, sensibilidade para a beleza
Dedilhando o violão transformas em alegria o lamento
Com a inspirada poesia vences a mais amarga tristeza!

Amigo, és forte, um guerreiro do dia a dia, vocacionado
Para o trabalho, forjado nos rigores e exigências da realidade
És um professor sem cátedra, culto, inteligente, antenado
Quem te conheceu não te esquece, e morre de saudade!

Teu coração alegre e gozador é bálsamo para teus parceiros
Pois é uma mina rica em filosofias de vida e estórias do cotidiano
Puxa a cadeira, que somos capazes de ouvir-te dias inteiros
Abre teu coração, e seremos fiéis companheiros ano após ano!

domingo, 8 de junho de 2014

ESCAPISTA, por Tádzio Nanan

Com os olhos fechados
Para os rigores da vida
Na folga tão merecida
Dos... Desajuizados!

Mas com a alma sempre aberta
Para os mistérios do mundo
- O humano, p.ex., me toca fundo
Isso quando acordado e alerta...

Tenho as mãos doídas
De escrever poesia e tocar violão
Não tenho talento
Para oito horas diárias de servidão
E o padecimento de anos e anos
De futilidades cumpridas!

Meditando, todo santo dia
Como um Sócrates moderno
Não me ofereça um terno
Que dinheiro não quero,
Quero o Palácio da Sabedoria!

De arte e beleza, embriagado
De sonhos a perder de vista
E de languidez
- O que vão pensar vocês?
O que quiserem,
Que assim Deus me fez...

No ócio criativo do artista
Belezas artificiais inventando
Só a imaginação cultuando
- Dane-se a realidade!
Que eu sou escapista!

sábado, 31 de maio de 2014

RUA J.B, 1897, por Tádzio Nanan


No jardim, ecos de conversações passadas
De tempos de mais sossego e inocência
Discussões, jogos, pileques, cantadas
O despertar dos corações e das consciências

Foi porto recebendo estrangeiros e viajantes
Portal para novas dimensões e energias
Um tugúrio para tímidos virginais amantes
Um refúgio para as artes e filosofias

Foi um forte protegido por afeto e delicadeza
Anos a perder de vista, até que o ciclo encerrou-se
O ar ficou carregado de estupor, de tristeza
Aquela atmosfera alegre e suave esgotou-se

Foi o próprio destino que quis assim
Os dias passavam dormentes, sombrios
Parecia que já estava decretado o fim:
A casa dos olhares e corações frios!

A sala foi ficando mais escura e vazia
As horas, melancólicas, todas iguais
Tão tristes estações, tão longos dias
O silêncio das ausências e a dor dos ais

Mas outra vez o destino age em nossa história
Um perfume no ar anuncia outra primavera
O vento traz um assobio de plenitude, de vitória
A glória de outra idílica e inolvidável era!

sábado, 24 de maio de 2014

MEIO-DIA!, por Tádzio Nanan



Meio-dia! Luz e calor em toda parte. Mas, contraditoriamente, algo em mim se recolhe, algo em mim de mim se ausenta, escapa, se esvai, como se fosse tarde, bem mais tarde, como se fosse a hora das melancolias e saudades. Mas é meio-dia ainda, a hora em que as sombras não nos perseguem! Caminhos e possibilidades infinitas, infinitas vidas a viver, inventar, mas parte de mim se paralisa, permanece, estanca, parte de mim renega a lei fundamental da vida: o movimento, e no auge da jornada se petrifica, se faz árvore, uma árvore outonal, sem copa, sem frutos, parte de mim cala-se e deita-se, esperando... O quê? E assim convida perigosamente as brumas das altas horas a se manifestarem, elas que estão sempre no aguardo, sorrateiras...
Meio-dia! Hora da colheita! E eu plantei tantas coisas; frutificarão? Será que o sonho que sonhei não era meu? Será que o sonho que sonhei era vão? Será que tais coisas sonhadas, docemente acalentadas, anos a fio, não tinham meu rosto, meu sobrenome? Terei ficado com o ônus do esforço, sem o bônus da recompensa: o pensamento, a arte, a beleza? Talvez o destino me tenha reservado uma seca implacável, seca de gente, de êxito, de arrebatamento, seca que abre sulcos em meu rosto, faz evaporar minha coragem, torna estéreis as sementes plantadas. Talvez seja como o destino me queira: árido, infértil, pedregoso, sem nada conceber...
Meio-dia! Tempo de erigir os palácios, as pontes, as catedrais da vida. O que tenho erigido nestes trinta e tantos anos? Será que se sustentarão os alicerces da minha arquitetura? Também é a hora das definições! E ainda tenho tanta coisa a definir, a decifrar, a entender, a aceitar... Faz alguns anos a solidão bateu à minha porta e eu, desavisado, deixei-a entrar. Ela ainda está por aqui, seu vulto cheio de desassossego! Também o medo apossou-se do meu coração e a dúvida vem sussurrando palavras pequenas em meus ouvidos. É um meio-dia bem cinzento, para falar a verdade, de nuvens carregadas, e, aliás, de corações carregados também...
Mas há esperanças! Se há luz e calor, há esperanças! Se as sombras dormem preguiçosas, há esperanças! Vou conseguir colocar-me no exato caminho, o caminho das flores, das alegrias, das transformações, dos resultados. Também posso fazer do caminho que percorro o exato caminho, o tão sonhado e sempre aguardado caminho das liberdades, conquistas e afetos, agindo com coragem, cultivando o talento, rompendo o casulo, oferecendo-me ao mundo na forma de palavras e pensamentos. O que frutificar, irei colher, alegremente agradecido; encherei de risos o silêncio, preencherei com abraços a solidão, partirei as correntes do medo, expurgarei as feridas que a dúvida engendra e farei com que se ouça as agradáveis melodias que componho no delirantemente onírico dia-a-dia da minha vida, a vida com a qual sonhei e sempre quis construir, a vida que quero deixar de legado para o mundo e às gerações futuras, cuja mensagem é: outras formas de viver são possíveis!
Meio-dia! Luz e calor em toda parte! Hora das iluminações!

sexta-feira, 16 de maio de 2014

OCASO, por Tádzio Nanan



O mesmo berço, o mesmo idílico passado...
Agora, o fogo cruzado; ódios ingentes, viscerais
Tão atormentados, sem Deus, sem luz, sem paz
O presente é desonroso e o futuro, assombrado!

Surdos uns aos outros, com suas vãs certezas...
Amesquinharam a palavra, que se tornou improdutiva
Espalhando rancores, desavenças as mais destrutivas
E pérfidos sentimentos, a sufocar delicadezas!

A reconciliação fracassou; a treva cai fulminante
Sobre a memória, a honra, a tradição da família
Cada um está só, cada um transformado em ilha
Cercados por inimigos, o socorro jaz distante!

A irmandade, a lealdade, o afeto, tudo olvidado!
O amor definha ao que a ignomínia se agiganta
Nada mais neste sobrenome cativa ou encanta
E pensar que tiveram tudo, tanto amor e cuidado!

segunda-feira, 12 de maio de 2014

SOBRE A VIDA , por Tádzio Nanan


Como são paradoxais os caminhos que a vida toma...
Às vezes, precisamos cair para reerguer-nos alados
E se subtraem algo a nós, a nós algo também se soma!

A vida e suas oposições, encruzilhadas, precipícios...
A dúvida ou o fundamentalismo? O cotidiano ou o extraordinário? A palavra ou o silêncio? O sentido ou o absurdo?
Encontrar a nós mesmos nas virtudes, ou nos perder nos vícios?

A vida e suas charadas esfíngicas, jogadas imprevistas, más surpresas...
Pegam-nos num telefonema, numa esquina, num fim de tarde, num agosto quaisquer
E nos põem de joelhos, a chorar e rogar diante de velas acesas...

A vida, tão docemente rude, tão claramente indefinida...
Qual seu sentido? A felicidade? Ou a felicidade é uma acomodação covarde?
Por quais caminhos seguir, de quais desistir, para receber o afago e evitar a ferida?

Como são contraditórios os caminhos que a vida nos propõe...
Quando calamos, (nos) revelamos, quando assumimos (nos) enganamos
Se desistimos, ela nos convida; se a confrontamos ela nos impõe!

Como é imprevisível a vida, nem sempre avança, às vezes, se detém...
E vivemos amargurados com o acre gosto do passado na boca
Uns com tanto amor, tanta luz, tanta vida, outros tantos sem!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

DIÁLOGO COM O ESPELHO, por Tádzio Nanan



Eu que me recusei a caminhar, a construir pontes
Abortei o futuro, erigi um presente repleto de ontens

Que contemporizei, recuei, me escondi, engoli a palavra
Nada tendo germinado da minha lida, da minha lavra

Que busquei tanta coisa, sem conseguir decompor suas substâncias
Levarei ao infinito esta dúvida, esta dor, esta ânsia

Que desacreditei de mim, do Homem, do porvir, imerso num vazio selvagem
Curvei-me ao medo e com ele fiz laços eternos de vassalagem

(me inquirindo ao espelho)

E tu que atravessarias oceanos, desertos, continentes
A ver o novo e o belo, a viver profundamente o que sentes

Que serias profeta, poeta, filósofo, perguntas espraiando
Que a única certeza é a de morrer e estar amando

Que com coragem prometeica ornarias com glória teu sobrenome
Satisfazendo o desejo por imortalidade, este sonho, esta fome

Que de posse dos argumentos exatos conduzirias o povo
À revolução das flores, que traria a primavera do novo 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

SONHADOR PREGUIÇOSO, por Tádzio Nanan

Sou sonhador, vivo decantando o impossível
Nas asas da imaginação eu fico, eu faço, eu posso
Vejo uma flor e sonho uma primavera invencível
Pintando com as cores das alegrias o destino nosso

Sou preguiçoso, não tenho pressa ou urgência
É como se soubesse algum feitiço sobre o tempo
Passar devagar e suavemente; a minha ciência
É aprender com as verdades segredadas ao vento

Sou sonhador, numa realidade voraz, avassaladora
Pescando estrelas num céu cada vez mais enlutado
Contra a iniquidade brandindo minha espada vingadora:
O verbo, poema dia após dia reescrito e reeditado

Sou um sonhador preguiçoso: tudo há de ter sua hora
As cartas estão sobre a mesa, o jogo está sendo jogado
Quando menos se espera, o botão da beleza aflora
Nunca é tarde demais para o que não está consumado

segunda-feira, 14 de abril de 2014

NARCISO: O AMOR PROIBIDO, por Tádzio Nanan


Açoitam-lhes férreos olhares acusativos
Que desprezo e ódio encerram, próprios do medo
Dos que contemplam a diferença e, em segredo,
Reconhecem-se (então, laceram-nos medos furtivos...)

Marcam-lhes na face limpa o estigma do horror
E da desonra! Ceifam-lhes a vida, os oprimem
E quanto mais os castigam mais os redimem
Perante Nosso Senhor, que é perdão e amor

Observa-os: são singelos, são como crianças
Cheios da delicadeza das almas ultrajadas
Presas no ergástulo das solidões cansadas

Deixa-os! Não tem sentido o mal que lhes lanças
Em hipócritas discursos de pregador nauseabundo
Ora, Deus não fez para toda gente o mundo?!

sexta-feira, 11 de abril de 2014

TRADUZIR-SE, por Tádzio Nanan

Ainda decifrando meu íntimo arcano 
E me consumo entre o acerto e o engano
Por trás destes olhos ardem mil solidões
Onde se costumavam sonhar revoluções

Meus sorrisos, brilhantes verdadeiros
Mas se eclipsam com a culpa dos erros

Sempre que começo as coisas terminam
O tempo e o destino as negam a mim e as minam
  
Animal feroz, mas prostrado, na cela
À procura dos beijos e abraços dela
  
Eu vivi o perfulgente mundo da certeza
Mas bruxuleou a luz que estava acessa

De través, olhares tentam capturar-me a essência
Mas tudo que eles poderão enxergar é ausência

Amiúde, tentam comunicar-se comigo; embalde
Gosto de suas companhias, mas prefiro a saudade

Escapam-lhe, às vezes, um risinho zombeteiro
Pois o que é real para mim não lhes é verdadeiro

Seus julgamentos e adjetivos já não me atingem
Vivo uma verdade que eles apenas fingem

Talvez traduzir-me signifique murchar, morrer
Meus mistérios são exércitos a me defender

Da vida ordinária, da lida do homem comum
Pois o que busco da vida é seu supra summum