sexta-feira, 26 de setembro de 2014

EU E DEUS, por Tádzio Nanan



deus me foi negado! deus me foi negado! Por um líder carismático com suprema autoridade? Não! Por uma sociedade opressiva que proibiu a religião? Também não!
deus me foi negado por mim mesmo, pela minha singular arquitetura corpóreo-mental, por cada célula ativa e cada neurônio vibrante neste “cadáver adiado”. deus foi subtraído de mim por mim mesmo, pela minha ancestralidade materialista, por meus genes ateus. Nada na minha inteligência recorre a deus, na verdade, sente desprezo por tal ideia, por seus seguidores também, rebanho de incautos e dementes. Cada pensamento meu é dedicado ao acaso, ele é mais crível e mesmo mais belo que uma suposta intencionalidade universal que redundaria na vida consciente.
Só que a questão é outra: meu drama íntimo existe porque minha sensibilidade pede por Ele, clama por Sua companhia, Seu perdão, Seu sistema moral, que oferecem ordem e sentido à vida (mas a vida não tem ordem nem sentido, tolinho!).
Minha materialidade – meu corpo, minha mente, os átomos hereges que em mim se agitam, o sangue irreligioso que me corre nas veias, jamais me deixarão ser arrebatado por ele. Meu corpo e minha mente são insensíveis, inflexíveis, rejeitam fantasias e delírios. Preferem levar-me ao desespero, ou à loucura, se for o caso, a me ceder o conforto e a serenidade da fé. A fé é um luxo que não está à minha disposição!
Assim, vivo uma guerra íntima, entre a eternidade da alma e o instante que fulge para nunca mais. Parte minha anseia por deus, parte minha gargalha dele, e neste corte profundo e doloroso as sequelas são confusão sensória e amargura. Eu queria deus, mas deus me soa absurdo e ridículo!
Meu coração pede por religião, senão pode ceder à impiedade, ao niilismo. Minha sensibilidade pede por deus ou poderá enregelar-se na indiferença. Mas minha inteligência mordaz afirma, de forma peremptória e tonitruante: “pó e sombras, tolinho, nada mais, nada de mais; som e fúria, tolinho, nada mais, nada de mais!”.
Triste daquele cuja mente prefere arriscar jogá-lo ao precipício a ofertar-lhe o reconfortante abraço da fé!
Eu queria crer, mas deus, a mim, é impossível!

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

QUATRO POEMAS, por Tádzio Nanan

O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ

a casa parece enorme; a cada passo, se estendem os cômodos, se multiplicam os metros, e os vazios se aceleram, como num universo particular; a solidão infinda-se, dilacerando-me lentamente, humilhando minha humanidade; uma imensidão de impossibilidades de afeto, diálogo, amor, esperança
falo fingindo a presença de outra pessoa, falo para ouvir-me, para lembrar que sou gente; a solidão é um sol que dá vida, expande as capacidades imanentes, abre os olhos para uma singular visão das coisas, mas, exagerada, entorpece e exaure, resseca o coração, confunde a mente, limita o espírito
percorro um milhão de quilômetros de pensamentos no espaço de um metro quadrado, quisera percorrer um milhão de passos sem nada a pensar, fruindo o momento
solidão tumular, silêncio cortante, pensamentos tortuosos
existo realmente ou apenas vestígio de algo extinto, sombra do passado? eles existem ou são reflexos de alguma coisa, não a coisa, o pó da coisa, o rastro fugidio da coisa? e se existimos, o fato de que tudo será extinto e esquecido não nos faz mortos e esquecidos desde já, como fantasmas errantes? alívio nada ficar registrado (que assim permitam as leis da física)
bebo água, sem água a gente morre, sem gente por perto morremos também, queria beber gente todo dia, como se fosse água, queria respirar gente como se fosse ar, respirar-se é bom, mas insuficiente, vai-nos intoxicando, precisamos de pontos de vista diferentes, de dialética e oxitocina
entro em meu quarto, meu palco e minha tumba, por onde andam meus sonhos e esperanças? murcharam como eu através das décadas; de timidez ando perdendo a vida, me disseram, não que a vida se importe, não que alguém se importe, eu deveria me importar, mas alquebrado demais para me importar; ouvindo música baixinho, para não incomodar ninguém, passando despercebido mais um dia, um alegre e festivo, talvez pela minha falta; ouvindo música baixinho, e dançando com alguém imaginário, o amor dos meus 15 anos
a casa parece enorme
uma ausência de tudo


LUTAR

Em um mundo brutalmente cindido pela desigualdade
O homem não pode restringir-se ao sonho particular:
Chefiar isso ou aquilo, curtir e gozar; urge participar
Dos assuntos públicos, organizar e lutar com vontade

Em um mundo por massacrante injustiça marcado
Deve-se vestir o uniforme, desfraldar a bandeira, ir à guerra
Contra vetusta ideia que nos assombra, deprecia e aferra:
O todos contra todos; oposto do paraíso sonhado

O homem comum percebe o caos e clama por um ideal
Se padecem os irmãos, como pode descansar à noite?
Não pode sorrir quando em tantos a vida dói como açoite
E essa desfaçatez de se dizer a iniquidade algo normal

Mas, se cada um fizer sua parte, não calar, contra-atacar
Se cada grito e cada lágrima puderem ser vistos e escutados
Mais e mais homens e mulheres se erguerão como soldados
Contra o mal: a atroz injustiça, a desigualdade secular



SERVIR

Servir a si mesmo – que delícia, é um direito natural
Da condição humana, o primeiro e fundamental motivo
Que advém da inestimável e rara consciência de estar vivo
E ser dono dos frutos do próprio esforço laboral

Servir a si mesmo e, desta forma, servir aos demais
Ofereço aos outros um futuro melhor ao pensar em mim
Os interesses diversos se conciliam para operar este fim:
Afluência material, bem-estar, felicidade, paz
Servir aos demais – que oportunidade, é divina lei
Da religião e filosofia, o ensinamento mais sublime
É aquele sopro de ar benfazejo que a todos redime
E no benevolente serviço alcançamos o posto de reis

Servir aos demais e, desta forma, servir a si mesmo
Uma sacrossanta energia me toma, alentando o coração
Socorrendo o próximo, Ele também me estende Sua mão
Me ergue, me guia, me salva de caminhar a esmo


NO CENTENÁRIO DE MEUS AVÔS – AMÉRICO BARREIRA E LAURO MACIEL SEVERIANO, UMA SINGELA HOMENAGEM DO NETO TÁDZIO NANAN

Américo, cidadão destemido, agente da história, apaixonado
Pela vida e pela humanidade, pelo futuro e o debate de ideias
Muitos matizes: intelectual, ativista, boêmio, ser multifacetado
Com a palavra, trilhou seu caminho de lutas e arrebatou plateias

Entregou-se às questões de seu tempo com a inteligência privilegiada
Já com o coração comunista, distribuiu cuidados, doçuras, carinhos
E assim tornou-se uma saudade e uma ideia sempre relembrada:
Uma vida plena é aquela na qual se percorre todos os caminhos

Sua casa, alegre e acolhedora, foi por anos nosso parque de diversão
Quando vôzinho chegando repartia os chocolates, a festa começava
Os primos todos reunidos, tagarelando em vívida confraternização
Ah, nossa infância, saudosa infância, que a vicissitude não maltratava

Lauro Maciel fez-se a si mesmo, como agem os audazes e valentes
Seus instrumentos de trabalho: o esforço, a palavra, a inteligência
Foi jornalista, mas brilhou como advogado dos mais competentes
Exercendo o ofício como serviço, com honestidade e proficiência

Pai zeloso, contra as intempéries da vida, foi refúgio e abrigo
Mente curiosa e resoluta, temperamento afável e constante
Por isso, onde andou fez amigos – dele não se conheceu inimigo
Pequenino no tamanho, na vontade e no caráter, um gigante

Leu sobre tudo e nas páginas dos livros sagazes observações ia anotando
Sua biblioteca e escritório, para mim, jovem leitor, eram templos de sabedoria
Mas não se engane, frequentemente vôzinho Lauro era visto se deliciando
Em Maranguape, no Maguari, em carnavais de transbordante alegria

O OLHAR DELE, por Tádzio Nanan



Ele tinha um olhar vago, triste, que transbordava dor e aflição, como se a vida lhe devesse algo, como se as pessoas lhe devessem algo. Um olhar de bicho recém-nascido, pedindo socorro, mãe, lar, carinho, aconchego. Também se via no olhar dele uma raiva dissimulada, uma fúria contida pela boa-fé da juventude, como se ele esperasse mais do mundo, como se tivesse sido traído pela sorte, esquecido por Deus, a quem, mesmo assim, sempre recorria em preces, crédulo.
Além disso, vi outra coisa em seu olhar: mágoa e decepção. Uma mágoa não direcionada, difusa, de a vida ser o que ela é, dura, escassa, implacável, pelo menos, para ele. E uma decepção doída, dele consigo mesmo, por não conseguir corresponder às exigências da vida, por deixar seus sonhos esvaírem como um punhado de areia entre os dedos, e decepção com os outros também, por olharem para ele sem o enxergarem, por passarem por ele sem o sentirem, por não o ouvirem, por o esquecerem em vida. “Eu sou gente, preciso de cuidados, de oportunidades!”.
O olhar triste, magoado talvez estivesse sedimentado na percepção de que aquela era a sua realidade e que ele não poderia mudá-la facilmente, que os dados já haviam sido lançados, e eles lhe desfavoreceram. A raiva advinha da não aceitação desta realidade, deste dia a dia sombrio, árido, sem perspectiva. Ele não podia admitir ser um joguete da sorte. Ele queria gritar contra isso, poder viver, poder sonhar, ser gente na plenitude de suas capacidades. Ser gente do tamanho dos seus sonhos.
Mas naquele olhar também ardia um sol. Havia um brilho secreto, escondido entre as brumas que lá passavam. Um brilho que dizia que aquele rapaz iria lutar, esforçar-se até o fim, até o limite de suas possibilidades para existir, não morrer; para ser homem, não bicho; para ser gente, não estatística do governo; para ser feliz, não vítima, ou pior, algoz! Como milhões de outros jovens, ele tinha recebido da vida uma viagem dura, repleta de tropeços e desvios, cheia de óbices, desassossego, infelicidades. Mas a alma dele era maior que tudo isso, ele tinha uma luz interior, uma vontade inabalável, um sonho de vencedor, uma expectativa imorredoura de felicidade. Ele era assim, da mesma forma que milhões de outros jovens mundo afora golpeados pela mão furibunda do destino. Apesar de o mundo ser o que é, apesar da amarga realidade, ele ia escolher a vida e a felicidade, ele ia viver e ser feliz, apesar das circunstâncias!

domingo, 10 de agosto de 2014

O DESPREZO, por Tádzio Nanan


O desprezo é um tipo de ódio arrefecido, tentando conter-se nos limites da indiferença, para parecer mais saudável e apropriado; às vezes, no entanto, ele escapa ao controle do seu portador e tem-se incontinenti uma explosão de ódio vibrante e maquiavélico, o olhar revela isso com muita força, o cenho contraído também.
O desprezo é uma arte feminina por excelência (sutil técnica de linchamento moral) direcionada, sobretudo, aos homens. Não significa que homens não desprezem mulheres: muitos as desprezam, apesar de precisarem delas, o que é contraditório, mas é como os homens são. Mas a arte/ciência do desprezo vem sendo desenvolvida, quiçá há milênios, pelas mulheres, e é no olhar delas (um olhar que não lhe alcança), em seu gestual (um gesto de apressada retirada), em suas palavras (as que não foram ditas ou as que ficaram subentendidas), que ele atinge seu esplendor máximo, sua plasticidade irresistível e, claro, sua crueldade dantesca.
Claro que algumas mulheres terão razão em desprezar certos tipos mesquinhos de homens, mas frequentemente é apenas autoengano: uma pretensão ridícula de que são moral e intelectualmente superiores a seus antagonistas(?). Tal falsa superioridade está baseada em uma enviesada interpretação da realidade, espécie de dissonância cognitiva.
Mas não importa, o desprezo, assim como o ódio, é um dado da natureza humana e está muito bem consolidado, nos genes e na cultura – as pessoas se desprezam e se odeiam (quanta falta de humildade não haverá nisso?), mas nem o desprezo nem o ódio chegam e se estabelecem sem pesados custos físicos, mentais e emocionais a todos os envolvidos. Odiar e desprezar causam um cansaço e um mal-estar insuportáveis ao coração e à própria mente, e, de repente, estamos mais ocupamos nesta empreitada do que em qualquer outro aspecto da nossa vida!
O desprezo é o pecadilho das almas finas(?), que se deixam envaidecer, e soberbamente, vestem a toga de juiz de um tribunal de exceção e passam a julgar as pobres almas ao alcance de suas implacáveis vistas. Ou seria o desprezo algo menos nobre? Seria o desprezo ciúme, invídia, desforra, arrogância? Seria o desprezador um indivíduo tomado de sórdidas, repugnantes e mal resolvidas paixões?
Pode ocorrer o caso de alguns desprezarem a si mesmos, e, como numa inusitada transferência psíquica, passarem a desprezar os outros, a ponto de qualquer trivial característica do próximo incomodá-los deveras, e passamos a castigar o infeliz, sem aviso prévio ou maiores explicações, meio sadicamente, com nossa sublime e superior indiferença, que, na verdade, não é bem indiferença assim, já que o outro mexe com nossos instintos mais secretos.
E quando o desprezado se enche de brios, percebe a covardia e a injustiça de sua situação e numa inversão corajosa passa a desprezar quem tanto lhe despreza? Não é algo bonito de se ver, poético, cinematográfico, revolucionário? Não... É apenas mais um capítulo repleto de mediocridade das conflituosas relações humanas!
O desprezo é das ações humanas uma das mais cruéis, o que denuncia o caráter hediondo daquele que se dedica com afinco a tal cotidiana empreitada. O desprezo é cruel, mas na cabecinha de alguns é arma muito chique, legítima e adequada, a que eles podem recorrer porque são merecedores, pois têm superioridade moral e intelectual! Muitos nobilíssimos corações fazem recorrente uso dela em suas superelegantes e dignas trajetórias de vida!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

EU E OUTROS , por Tádzio Nanan


Eu sou o passado
Outros representam o futuro

Eu sou daqueles que flertam com a morte
Outros sonham com a imortalidade tecnológica (a vida eterna, não através da alma, mas da mente)

Eu sou o biológico, e suas deformações
Outros já pensam em seu cabal porvir pós-humano

Eu sou caótico
Outros têm tudo minuciosamente arquitetado

Eu sou à toa
Outros não estão pra brincadeira: esforçam-se todos os dias para brilhar

Eu sou poeta
Outros sabem ganhar rios de dinheiro

Eu sou daqueles que padecem de angústia e ansiedade crônicas
Outros, como sistemas cibernéticos, ajustam-se a cada instante para atingirem a perfeição

Eu sou delirante
Outros se cercam de expectativas e desejos comezinhos

Eu sou uma contradição ambulante
Outros trazem a solução na ponta da língua

Eu tento, tento, tento e o talento não acontece
Outros têm vocação para a boa vida e a felicidade

Eu tenho tendência a ser mesquinho
Outros revelam alma superior e iluminada

Eu sou persona non grata
Outros ganham elogios e coisa à beça de graça

Eu quase não tenho amigos
Outros têm Facebook e fazem network

Eu sonho com abdicar de tudo
Outros estão construindo impérios

Eu quero ficar aqui bem quietinho
Outros querem receber aplausos, homenagens

Eu não sei o que significa ser um homem sério
Outros querem fazer história

Eu estou sempre na corda bamba, à beira do precipício
Outros são centrados e resilientes, têm atitudes moderadas e sustentáveis

Enfim, como eu disse:
Eu sou o passado
Outros representam o futuro

sábado, 2 de agosto de 2014

OU TUDO OU NADA, por Tádzio Nanan


Os deuses sussurraram em meu ouvido:
Ou tudo ou nada!

O capeta também jogou sua isca:
Ou tudo ou nada!

Meus instintos me mandaram escolher:
Ou tudo ou nada!

O destino me lançou um feitiço:
Ou tudo ou nada!

E essa jornada começou por acaso!
Ou tudo ou nada!

A angústia me esmaga o peito:
Ou tudo ou nada!

Não acredito neles, nem quero isso pra mim:
Ou tudo ou nada!

Homens mais estúpidos do que eu chegaram lá:
Ou tudo ou nada!

E se for mais um delírio da minha mente?
Ou tudo ou nada!

Deus está morto, logo estarei eu:
Ou tudo ou nada!

Ela me amava; agora é uma pálida lembrança:
Ou tudo ou nada!

Meus inimigos debocham das minhas escolhas:
Ou tudo ou nada!

A plateia, curiosa, espera pra ver:
Ou tudo ou nada!

O ponto de não retorno!
Como disse o célebre romano: alea iacta est!

Ou tudo o que sonhei ou juro que sumo, caio na estrada!
Ou tudo o que sonhei ou um revólver, o estrondo, a bala!
Ou tudo o que sonhei - esses ideais fulgurantes, ou o nada!

terça-feira, 29 de julho de 2014

CORAÇÃO LOUCO, por Tádzio Nanan

Coração louco, pulsando descompassadamente, sem decifrar o que sente, coração de homem feito refém do assustado menino de outrora, o menino subjugando o homem de agora
Aventuras tamanhas, desventuras tamanhas, e um coração tão frágil, cheio de melindres, de poucas ousadias, de poucas esperanças, coração de soldado vencido, entregue às mãos do carrasco, na marcha para longos anos de esquecimento
Um coração sem rumo ou propósito, pulsando à toa, triste depósito de amarguras, duras são as horas que o coração pulsa solitário, por causa nenhuma, por ninguém, na espiral de emoções conflituosas, afogando-se nas intempéries das próprias idiossincrasias
Coração selvagem, incivilizado, companheiro das altas solidões, dos duradouros silêncios, da rústica simplicidade, coração meio de bicho, esgueirando-se, escondendo-se nas matas da selva de pedra da civilização, dividido entre o chamado da natureza e a beleza do discurso e os encantamentos da palavra
Coração selvagem, mas, contraditoriamente, melodramático também, sentimental coração latino-americano, asfixiado nas paixões clandestinas que inventa para si
Coração, meu arredio coração, ainda na ignorância de si mesmo, na escuridão que incautamente teceu para si, na escuridão e na ignorância, pulsando, pulsando descompassadamente, tão pouco coração e tanta vida!


segunda-feira, 28 de julho de 2014

O ÓDIO, por Tádzio Nanan

O ódio respira pelos olhos do odiento, que ardem em chamas e crivam seu objeto com raios fatais de pura maldade. O ódio se nutre da imagem do objeto odiado e assim se robustece, se solidifica, tornando-se muralha intransponível para o afloramento dos bons sentimentos. Quanto mais odiamos menos amor temos a oferecer aos outros. Ódio e amor são mutuamente excludentes. O ódio é exclusivista. É ele e mais nada. O ódio cresce na garganta, sobe para a língua, explode pela boca, e se torna verbo, palavras malévolas, maledicentes, cantos noctíferos, que espalham sombras e noites. O ódio é força da natureza quando assume os braços, as mãos, do odiento, e promove a destruição que tanto almeja, à força, com golpes implacáveis, irreversíveis.
Quanto mais fracos somos mais forte ele se configura, e se somos uma nulidade moral ele se torna infinito, torna-se nossa segunda pele, ou mais que isso, nosso lar, passamos a morar nele, escondemo-nos covardemente debaixo de sua asa negra, ele nos protege, acarinha, e escancara as portas para nosso lado escuro. O problema com o ódio é que é gostoso senti-lo queimando nas veias, é narcótico poderoso, vicia, e passamos a adorá-lo como um deus nefasto, e erguemos sua catedral negra e viramos devoto, discípulo dele, e assim caímos em sua armadilha, porque ele passa a nos orientar a vida, guiar nossos pensamentos, atos, palavras. Ele nos quer escravos.
Quando a vida perde o sentido, muitas vezes, o ódio empresta-lhe um, dá-lhe significado, ainda que o preço cobrado seja alto e venha mais adiante, na forma de uma morte prematura, ou na forma de uma longa vida amesquinhada e medíocre, mantida por ele e para ele, a serviço dele, dedicada a ele. O ódio dorme sob a sombra da nossa consciência, da nossa humanidade e prega o desassossego, a discórdia, o tumulto, é vulto que nos acompanha de perto, sorrateiro, prestes a dar o bote quando nossa imunidade moral fraqueja. O ódio é como um vírus que se apossa do nosso corpo para reproduzir-se contaminando cada vez mais gente para seu exército de dementes, de furiosos, de desesperançados. O ódio é obsessivo, paciente e resoluto, ele odeia seu objeto com constância invejável, não faz concessões, não sente empatia, não diminui sua marcha para a catástrofe, instilando seu veneno em toda e qualquer oportunidade, e se regozijando disso.
Um homem forte não sente ódio, o ódio é para os fracos e covardes, o odiento não pode sentir amor por ninguém, porque o ódio denigri e depaupera o amor, fulano não ama cicrano, fulano odeia beltrano, o ódio é uma mácula no coração de qualquer um, aliás, quem sente ódio não tem coração tem qualquer coisa sombria no lugar, uma pedra, um vazio, um grito, uma noite, bombeando pelo corpo raiva, invídia e vingança. O ódio é a coisa mais relevante na vida do odiento, não deixa espaço para mais nada, o ódio triunfa sobre tudo. O ódio é rei.

Muito cuidado com o ódio que ele vai te roubar tudo: caráter, consciência, humanidade, teus sonhos também (e tu passarás a sonhar os pesadelos dele). Cuidado, muito cuidado mesmo, com este pequeno ódio que alimentas contra alguém (e ingenuamente te delicias com isso), porque a vocação do ódio é crescer, crescer rápida e esmagadoramente, e consumir, consumir tudo, insaciavelmente. Até te consumir, até te engolir inteiro, num vórtice de tragédia e desespero!

domingo, 27 de julho de 2014

MEU LANCE!, por Tádzio Nanan


Meu lance não é dinheiro, é sossego
Vai tu, meu irmão, procurar emprego

Meu lance não é a cama, é a rede
Não tenho esse tipo de fome, esse tipo de sede

Meu lance não é o estudo, é a contemplação
Prefiro a sabedoria à metódica reflexão

Meu lance não é enfrentar, é fugir
Meu lance não é acordar, é dormir

Meu lance não são as amizades, mas a solidão
Três almas juntas pra mim é confusão

Meu lance não é o conflito, é a anuência
Não entro em jogos de influência

Meu lance não é o movimento (movimento basta o da Terra), é relaxar
Só de olhar os outros correndo fico sem ar

Meu lance não é alimentar duvidas, é ter certezas (ainda que pequenas....)
E com elas vivo uma vida serena

Meu lance é desaparecer, ficar escondido
Meu lance é esquecer e ser esquecido

PEQUENO POEMA DE ANIVERSÁRIO - para meu pai, por Tádzio Nanan

NANAN

Nanan, nosso protetor
Inabalável fortaleza de amor

Nanan, nossa orientação
O vento, as estrelas, a intuição

Nanan, nossa sintonia
Com os ideais de honra e valentia

Nanan, nosso professor
A palavra, o gesto, o suor

Nanan, nosso campeão
Braço, mente, coração

Nanan, nossa alegria
Que bom tê-lo aqui todo dia

Feliz aniversário
09/07/2014

sexta-feira, 13 de junho de 2014

AMIGO (dedicado a Jorenilson Madeiros Medeiros), por Tádzio Nanan


Amigo, quantas vezes eu te disse que eras especial
Ganhamos muito a teu lado, perde quem não te conhecer
Tens tanta coisa de doce, de acolhedor, de angelical
Uma candura e suavidade difíceis de esquecer!

Amigo, quantas vezes eu te disse que tinhas talento
Uma vocação para as artes, sensibilidade para a beleza
Dedilhando o violão transformas em alegria o lamento
Com a inspirada poesia vences a mais amarga tristeza!

Amigo, és forte, um guerreiro do dia a dia, vocacionado
Para o trabalho, forjado nos rigores e exigências da realidade
És um professor sem cátedra, culto, inteligente, antenado
Quem te conheceu não te esquece, e morre de saudade!

Teu coração alegre e gozador é bálsamo para teus parceiros
Pois é uma mina rica em filosofias de vida e estórias do cotidiano
Puxa a cadeira, que somos capazes de ouvir-te dias inteiros
Abre teu coração, e seremos fiéis companheiros ano após ano!

domingo, 8 de junho de 2014

ESCAPISTA, por Tádzio Nanan

Com os olhos fechados
Para os rigores da vida
Na folga tão merecida
Dos... Desajuizados!

Mas com a alma sempre aberta
Para os mistérios do mundo
- O humano, p.ex., me toca fundo
Isso quando acordado e alerta...

Tenho as mãos doídas
De escrever poesia e tocar violão
Não tenho talento
Para oito horas diárias de servidão
E o padecimento de anos e anos
De futilidades cumpridas!

Meditando, todo santo dia
Como um Sócrates moderno
Não me ofereça um terno
Que dinheiro não quero,
Quero o Palácio da Sabedoria!

De arte e beleza, embriagado
De sonhos a perder de vista
E de languidez
- O que vão pensar vocês?
O que quiserem,
Que assim Deus me fez...

No ócio criativo do artista
Belezas artificiais inventando
Só a imaginação cultuando
- Dane-se a realidade!
Que eu sou escapista!

sábado, 31 de maio de 2014

RUA J.B, 1897, por Tádzio Nanan


No jardim, ecos de conversações passadas
De tempos de mais sossego e inocência
Discussões, jogos, pileques, cantadas
O despertar dos corações e das consciências

Foi porto recebendo estrangeiros e viajantes
Portal para novas dimensões e energias
Um tugúrio para tímidos virginais amantes
Um refúgio para as artes e filosofias

Foi um forte protegido por afeto e delicadeza
Anos a perder de vista, até que o ciclo encerrou-se
O ar ficou carregado de estupor, de tristeza
Aquela atmosfera alegre e suave esgotou-se

Foi o próprio destino que quis assim
Os dias passavam dormentes, sombrios
Parecia que já estava decretado o fim:
A casa dos olhares e corações frios!

A sala foi ficando mais escura e vazia
As horas, melancólicas, todas iguais
Tão tristes estações, tão longos dias
O silêncio das ausências e a dor dos ais

Mas outra vez o destino age em nossa história
Um perfume no ar anuncia outra primavera
O vento traz um assobio de plenitude, de vitória
A glória de outra idílica e inolvidável era!