Enfim, a manhã de uma vastíssima
noite!
Lentamente, as mulheres se vão despertando
Seus olhos
desvirginam-se ante o espetáculo da luz: formas mil, mil
possibilidades
Os corações estão secos:
Ó sede!
As
mentes estão ávidas:
Ó fome!
As almas sonham com a
amplidão:
Ó calor!
Abrem os braços, ávidas do mundo
inteiro: é um convite à Existência, deusa-mãe, para compartilhar
com elas os mistérios profundos da vida
São desejos vorazes,
forças fluindo livremente, revoluções em marcha
Mas ainda não
se levantam. Por que não se levantam?
Porque também há muita
confusão e dúvida
São um turbilhão de sentimentos, emoções,
razões e desrazões
São os séculos que pesam insuportavelmente
sobre seus ombros. A carga dos velhos dilemas e dos paradigmas
depauperados
Têm de vencer suas sombras, transpor seus
abismos
Têm de matar a si mesmas, para nascer inteiramente
outras
Em breve, ágeis e destemidas, correrão atravessando os
espaços e as horas. Mas não ainda, não ainda...
As mulheres,
enfim, descobriram a história
Logo, logo a história também fará
sua maior descoberta: a história das mulheres, o limiar da
verdadeira História
Tornar-se-ão melhores reciprocamente?
Sim!
Que transformações sucederão em ambas? Todas!
Algumas
mulheres exigem do mundo uma indenização pela história ter sido o
que foi
Paguem, vociferam, pela nossa doída plurissecular
inexistência, por nosso amor castigado, por nosso corpo aviltado,
ferido, vendido e comprado, por nossa delicadeza humilhada pela
força, por nossa dignidade seqüestrada pelo dinheiro, por nossa
inútil entrega aos bárbaros e aos brutos, por nossa inteligência
castrada pelos covardes
As mulheres querem revanche!
As
mulheres querem revanche?
Não. Somente aquelas que ainda não
compreenderam a grandeza do momento, aferrando-se ao ontem, ao invés
de imaginar e erguer o amanhã
É porque enquanto o novo não se
impõe, o passado chora à sua porta e dói nos corpos como Roma doeu
no corpo do Cristo
É porque ainda não se encontraram totalmente
(enquanto os homens se têm perdido)
Estão no meio da travessia
É
duro estar no meio da travessia
Caminham num labirinto escuro, não
se enxerga um dia à frente
Caem de alturas infinitas
São
arrebatadas por forças ignotas
Suas identidades tragadas em
redemoinhos emocionais
Injetam miríade de delírios nas veias
Têm
os corações explodidos
Têm as vulvas em brasa
E repercutem o
grito de Munch
E enlouquecem como o pintor holandês
E desistem
como os suicidas
E se envenenam lentamente (enquanto envenenam o
mundo com a cicuta das feridas supuradas)
Olham-se no inexorável
espelho da alma
E vêem o monstro de Frankenstein:
Um pesadelo
composto de mil pedaços ainda não revelados
Não sabem quem
são
E dói ignorar quem se é, o que se é, o que se quer
Partem
em busca de si
Perseguem-se
Capturam-se
Confessarão?
A
verdade pode doer. Não vão querer ferir seus ouvidos com a
verdade...
Não! Querem sim saber da verdade, porque têm
coragem
(A verdade é só para os que têm coragem)
Querem
saber quem são
Querem decifrar este enigma
Traduzir os arcanos
do feminino, plantados em seus corações desde tempos imemoriais
Mas
ainda há muita ignorância. E o caos
Ainda sonham com a
maternidade, ou preferem uma liberdade egocêntrica?
Trocariam uma
vida de doçura e calma pela pantomima cínico-traiçoeira do poder,
do dinheiro e da glória?
Anseiam por ter o respeito, quem sabe o
temor dos homens, ter o mundo a seus pés? Ou preferem, humildes,
ajoelhar-se e beijar os pés da Terra?
Um homem (o ideal)? Ou
todos? Ou nenhum?
Ó sede!
Ó fome!
Ó
calor!
Levantam-se
Tropeçam, caem, soerguem-se
E avançam
A
marcha de um exército?
Um cortejo pacífico?
Aí vêm
elas:
Sombra e objeto
Potência e ato
Sonho e
labor
Escuridão e luz
Mas, desde já, livres de todo senhor e
de toda cruz!