sábado, 2 de junho de 2012

ANEDOTA DO DIA (por Tádzio Nanan)


O senhor K morreu e levou consigo seu enigma.
Quem foi ele, ninguém nunca conseguiu responder.
Ele próprio não dissera ou escrevera palavra sobre si.
Algumas pessoas morrem e permanecem indecifradas. Para os outros, para si mesmas. Até para Deus, eu acho!
Outras, entregam-se tanto à vida, que se sabe delas num relance.
Algumas pessoas são esfíngicas. Esfinges de si mesmas, a lançar charadas mortais, ao invés de aproveitar o tempo (o tempo ele mesmo uma charada mortal, mas não vamos discursar sobre isso agora...).
Algumas pessoas são um quebra-cabeça que nunca se monta. Vivem uma vida inteira aos pedaços, abandonadas sobre a mesa das horas, esquecidas em cantinhos obscuros do casarão da existência, vivendo tristemente longas vidas impensadas, dessentidas. Nunca lançando luz sobre seu íntimo mistério (o Mistério de todos nós, esqueçamo-lo momentaneamente...)
O senhor K morreu. Juro por Deus que para mim ele morrera anos antes, de um certo mal misterioso.
Mas o que disseram é que ele mumificara em vida, e assim perdera seus derradeiros mas ainda joviais anos!
Sucede o mesmo com quantos, que são esquecidos por Deus, pelas gentes, e até pela burocracia estatal!
Quantos de nós, que aqui reunidos, bebericando, tagarelando, parecemos estar vivos, mas estamos mesmo – viver é isso, é só isso?
Pois é, quantas pessoas morrendo vivinhas da silva. Ninguém sabe delas. Elas próprias esquecem de si durante toda uma vida, afogando-se em covardias, melindres e pequeníssimos dramas. Uma vida de cotidianas mortes. Vidas impensadas, dessentidas; vidas dispensadas, ressentidas...
É mesmo de querer morrer, viver assim. E morre-se mesmo de morte morrida se assim vivemos!
O senhor K morreu. Cedo ainda. Aos 53.
Mas alguém sussurrou no enterro que já fora tarde!

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