sexta-feira, 29 de junho de 2012

UM CONTO DA MEIA-NOITE - por Tádzio Nanan


Ele entra no recinto apressado, quase tropeça, dá bom-dia à atendente com um gesto esquisito, com o qual ela já está acostumada, e pede vênia para ir ao banheiro. Tranca-se lá dentro, junta a necessária coragem e mira o espelho: maldição!, lá está ela, com seus vinte e poucos anos, suas louras madeixas encaracoladas escorrendo sobre os ombros, os olhos verdes felinos, grandes e assustados, os fartos atributos femininos. Ele a ama deveras – afinal, é muito linda!, e a odeia mortalmente, desejaria poder matá-la, meter-lhe as mãos na garganta e asfixiá-la à morte! De onde ela vem, meu Deus? De onde ela vem? Por que está fazendo isso com ele, essa tortura, esse assombro quotidiano?
Sai do banheiro em desalinho, mas o ciente médico logo o convida a entrar. Apertam-se as mãos, ele com aquele aperto frouxo de sempre, e senta-se no sofá, o corpo todo a tremer, a suar em bicas, o coração a bater descompassadamente.



  • Vamos lá, meu querido. O que você tem para mim, hoje?
  • Como eu tentei lhe dizer ao telefone, doutor, há dias que a vejo. A vejo, sem parar. Em tudo que reflete, eu vejo a maldita imagem dela. E mais: não consigo sacar ela da minha mente, vejo cada pormenor do rosto dela, cada detalhe do corpo dela, sinto ela respirando sobre mim, ouço a voz dela dentro da minha cabeça, ela fez de mim sua residência, e isso está me matando, me matando! Estou completamente desesperado, a ponto de fazer besteira, doutor, ouça o que lhe digo! Tô perdendo a razão...
  • Você está tomando a medicação que eu prescrevi?
  • Terminou há dias, doutor, e eu ainda não arranjei o dinheiro para comprar mais, o dinheiro é pouco, o senhor sabe. Mas vou comprar, logo, logo.
  • Você não acha que a falta da medicação está relacionado com o que você está me relatando?
  • Sei lá, doutor! Deve estar... O que sei com certeza é que minha vida está desmoronando, não consigo dormir, minha mente está em cacos, minha identidade está dia-a-dia mais obscura, estou à beira de um colapso. É pressão demais sobre minha débil estrutura psíquica... Doutor, a minha tese inicial era a de invocar o sobrenatural para explicar isso tudo, um espírito que me seguia, tentando me dizer alguma coisa, me passar um recado do além, de alguém, ou talvez fosse simplesmente um espírito raivoso que estivesse tentando se vingar de mim. Mas eu nunca fiz mal a ninguém, a mulher alguma, sempre as tratei muito bem, sempre simpatizei com elas, com as causas delas, e, além disso, não acredito nem um pouco nessa sandice, o tal de sobrenatural, nem em Deus eu acredito, muito menos em alma penada...
  • Faz muito bem em descrer de tudo isso. Mas, diga-me, você não se questiona do por quê de ver a imagem de uma mulher no espelho, de ouvir a voz dessa mulher na sua cabeça?
  • Ora, doutor, não é essa exatamente a questão!? Não é exatamente isso que me está afligindo, me tornando um alucinado, um desvairado, um delirante!? Por que cargas d'água eu vejo uma mulher refletida onde deveria estar a minha imagem. Logo eu que sempre me pensei tão másculo, tão bem resolvido com minha sexualidade! Como é que de repente eu me torno uma mulher, quer dizer, como é que eu passo a me enxergar como uma mulher, assim, do nada? Tem outra ideia que me ocorreu, além da do sobrenatural: talvez meu cérebro esteja tentando me convencer de que sou homossexual, que eu reprimi a minha verdadeira sexualidade ao longo da vida, ou pior que isso, que sou transexual e devo me tornar uma mulher, mudar de sexo, fazer a operação mesmo, que minha alma é mais feminina que masculina, e que eu devo fazer meu corpo ficar em sintonia com minha psique. O que eu também acho uma grande loucura porque não existe varão mais macho do que eu nesta cidade...
  • Bem, é uma hipótese, né?, mas não sei se é bem esse o caso... Permita-me perguntar um pouco mais sobre você, Antônio. Vamos tentar conhecê-lo melhor. Você poderia me dizer como foi a sua infância?
  • Minha infância? Foi ótima. Nenhum trauma. Amor dos pais, amigos, passeios...
  • Sim, mas dê mais alguns detalhes sobre ela. Você cresceu aqui mesmo, gostava de futebol, quem era seu melhor amigo?
  • Nossa, doutor, já tenho pra lá de 40 anos. Não sei se consigo lembrar-me de todos esses detalhes da infância...
  • Ora, meu caro, da infância todo mundo recorda-se. E você tem 40 e poucos, não 90 anos! Vamos lá, faça uma forcinha, ajude-me a ajudá-lo...
  • Deixa eu ver... Hummm... Doutor, não está vindo nada, coisa alguma à minha memória. Não estou conseguindo acessar nenhuma lembrança! Que coisa estranha, doutor, estranhíssima, apavorante!
  • Tente um pouco mais...
  • Nada, doutor! Coisa alguma me vem à mente. Será que eu estou com algum problema neurológico, uma doença neurodegenerativa, um tumor? Tô ficando em pânico, doutor...
    (começa a lacrimejar)
  • Calma! Calma! Estou aqui e vou lhe ajudar! Não, não, estas doenças que você citou não tem nada que ver com o seu caso. Eu sei que é doloroso, que é complicado, mas vamos lá, tente lembrar das suas brincadeiras de menino, das coisas que você gostava de fazer, das garotas da rua...
  • Doutor, o senhor não está entendendo, o senhor só está conseguindo aumentar meu mal-estar, eu não consigo lembrar de nada, como se eu nunca tivesse existido, é tudo um imenso vazio, um vazio glacial... Me vem agora uma sensação de enlouquecimento...
    (levanta-se e começa a andar pela sala, desbaratinado)
  • Sente-se. Vai dar tudo certo. Vamos mais devagar, então. Você lembra, por exemplo, da sua primeira namorada?
  • Namorada? Hummm... Não, doutor. Tudo que me vem à mente são nomes e rostos de homens, do Marcelo, do Henrique, do Rodrigo... Doutor, será que eu já me envolvi sexualmente com homens? Tô passando mal, tô querendo vomitar doutor... Me ajuda... Acho que vou apagar...

    Antônio desmaia. O Doutor o socorre, deita-o no sofá. Antônio vai recobrando a consciência lentamente. Bebe um copo de água, e engole uma pílula que o médico lhe dá. Ficam em silêncio por alguns instantes.

  • Nossa, doutor, o que estou fazendo aqui?
  • Não lembra de nada?
  • Não, não consigo lembrar... Tive uma crise? Foi muito severa? Não minta pra mim, doutor...
  • Foi mais aguda, sim...
  • Quem foi, doutor?
  • O Antônio. A personalidade dominante. As outras são secundárias e esporádicas.
  • Estou exausta, doutor, com uma dor de cabeça insuportável. Meu corpo está todo doído. Não consigo raciocinar, estou com medo de enlouquecer de uma vez por todas.
  • Calma. Aos poucos, você se recupera. Vou lhe indicar um novo medicamento, muito bom, muito mais eficaz, os testes estão comprovando, você vai ver. Também podemos tentar uma nova terapia que está surgindo nos Estados Unidos.
  • Eu já quase não consigo lembrar de qualquer coisa, doutor. Minha memória de curto prazo desapareceu, a de longo prazo é confusa, enevoada... Isto que me aconteceu hoje tem acontecido muito amiúde?
  • Sim, você tem passado por momentos mais críticos nos últimos tempos. Eu associo isso ao estresse destes últimos anos.
  • Quantos anos, doutor?
  • Os últimos cinco anos.
  • Eu venho tendo essas crises já faz cinco anos? Porque na minha cabeça parece sempre que é a primeiríssima vez, é sempre um espanto novo, uma agonia sempre renovada, um medo mortal, muito medo mesmo, e depois, a vergonha, muita vergonha...
  • É verdade, Andréia, é assim mesmo, é a doença, você tem de entender, e ter paciência...

Andréia começa a prantear alucinadamente, demonstrando estar em desespero profundo. O doutor lhe dá outro medicamento, um bem forte. Depois, ambos ficam em silêncio. Um silêncio arrasador. Andréia pede vênia e vai ao banheiro. O médico a espera parado na porta. Ela tranca-se lá. Olha-se no espelho. É linda, e jovem ainda. Mas já é tarde demais para ela. Tira o casaco, coloca-o em frente ao espelho, dá um forte soco nele. Estilhaçado o espelho, pega dele um pedaço cortante e abre todo o antebraço esquerdo. Não dá sequer um gemido. Morre em silêncio. Quando o médico arromba a porta, uma enorme poça de sangue ganha a sala. Aterrorizado, ele olha para ela, lágrimas caem-lhe do rosto, um laivo de desejo rasga-lhe a consciência – há tempos que a amava. Depois, a dilacerante sensação de fracasso. Um detalhe a arrefece e o conforta: ela partiu sorrindo!



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